O Pornographo - um blog que não sai do corpo (fund. 2005)
Segunda-feira, Fevereiro 16
[171] O despacho que Faure não assinou
A Humanidade tem progredido por causa do ditado "primeiro o dever, depois o prazer", ou noutra versão, "primeiro a obrigação, depois o alívio da tensão". Ora porque esta ideia parece a todos muito avisada, e com muita razão por si, todas as pessoas se lhe submetem de bom grado, mesmo quando a acumulação dos deveres atira os folguedos para calendas improváveis. Todas? Nem todas! Naquele dia 16 de Fevereiro de 1899, há exactamente 110 anos, Félix Faure, que presidia ao destino da França, preferiu entregar-se aos braços - ou, ao que parece, à boca: dele escreveu, deliciosamente, Clémenceau: "Il a voulu vivre César, il est mort Pompée" - de uma jovem fille de joie, em vez de se entediar com o expediente. Esse bravo Gaulês, que vivia certamente sob o adágio "as que se dão, ninguém no-las tira", percebeu que aquilo era muito mais importante do que maçar-se com correspondência. Há sempre alguém que poderá aborrecer-se por nós (como de facto deve ter ocorrido com o seu sucessor), mas um broche é intransmissível. De certa maneira, Faure deu a vida por uma ideia. Saibamos tirar daí os ensinamentos devidos e dediquemo-nos ao dever sempre que o prazer o permita.
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Domingo, Fevereiro 8
[170] Manual de pornosofia (fragmentos)
"(...) A operatividade do deslocamento enquanto dispositivo pornosófico mostra-se à evidência no seguinte exemplo: tratando-se de protagonistas humanos, a posição vulgarmente designada por canzana é muito apreciada pelos pornófilos, provavelmente em virtude da remissão para um registo de animalidade; todavia, e não menos curiosamente, ao porno-zoófilo quase aborrece a posição canzana na interacção humano-animal; a cena rara e procurada é a do vetusto missionário, tanto nas combinações mulher-cão (cavalo, bode, tamanduá, etc.), como nas combinações homem-cadela (cabra, tamanduá-fêmea, etc., égua é mais difícil) (...)".
[169]. Os Haiku de o pornographo
A crise acaba por atingir os sectores da vida social que lhe são aparentemente mais imunes: hélas, as pessoas casam menos; e quando casam, vestem mais pronto-a-vestir; e quando casam e compram roupa decente para o casamento, já não têm idade para usar véus. Enfim, o negócio aqui na empresa assume a curva descendente da cauda do vestido de noiva, e todos temos longos períodos de tédio, dedicados a eliminar vibrissas do nariz, coçassão de virilhas (actividade unisex) e jogos de computador, e assim. Algumas das minhas colegas especializaram-se no sudoku. Eu, apesar do elevado índice semantografonológico da palavra (que nos remete para um esforço - sudo, de transpiração - associado a um pequeno buraco escuro e húmido) , e porque sou contabilista, não me sinto muito atraído pelos jogos numéricos. Se temos de nos orientalizar, prefiro ocupar estes tempos mortos no haiku - que é como quem diz: haja poesia! Deixo aqui o primeiro haiku que me saiu dos dedos, por assim dizer:
[168] Serviço público
Fazendo prova de estonteante assiduidade, volto ao vosso contacto para vos prevenir, de forma desinteressada e altruísta contra uma certa e determinada publicidade possivelmente exagerada. Já aqui se fez referência (ou se não, devia ter-se feito) àquele maravilhoso reclame televisivo onde Fátima Lopes, narrando como também ela se sentia... "inchada", incitava as portuguesas a tomar Activia para melhorar o trânsito intestinal, desafiando-as a regressarem daí a uns dias para se "verificar" o resultado. Felizmente, acho que ninguém voltou, ou, pelo menos, não da maneira que se podia temer. Ora, parece que a Fátima deixou de fazer publicidade cripto-erótica para se dedicar à exagerada. Agora dá a cara por um creme anti-rugas da Garnier, ostentando um tomate lisinho na mão. Ainda que provisoriamente, sou peremptório: engano. Já experimentei e, passadas 3 horas e meia, continuam exactamente na mesma.
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Terça-feira, Agosto 19
[167] Alegorias populares
Agora estou com um bocadinho de pressa, mas não queria deixar de partilhar convosco um piropo que ouvi hoje um gestor de conta dirigir a uma transeunte com um trem traseiro poderoso:
[166] Pensando bem...
... a Hillary tem potencialidades. Agradam-me aquelas bochechinhas acolhedoras. Lewinsky é um boião de perplexidades.
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Quinta-feira, Janeiro 31
[165] Mistérios da Humanidade
Uma discussão crucial dos nossos dias é a que se trava entre o evolucionismo e o criacionismo, quer dizer: sabermos se o Homem (e também a Mulher), são uma obra divina ou uma invenção de Darwin. Essa discussão tem reflexos brutais na mundivisão contemporânea. Chegámos todos a ser macacos (e macacas)? Ou a Mulher deriva directamente de uma clonagem falhada? Muitas são as questões, e assim. Mas nem uma nem outra destas correntes de pensamento resolve o mistério que desde sempre atormenta a Humanidade: o que surgiu primeiro - a esteatopigia ou a elefantíase peniana? Um evolucionista favorecerá, provavelmente, a esteatopigia: todo o organismo tende a perpetuar a sua espécie e, perante nádegas encombrantes, desenvolve as suas próprias estratégias para atingir o alvo (tese do priapismo necessário). Inversamente, o criacionista é mais sensível à harmonia do universo, à ordem do conforto e da adequação: o aparecimento de pénis descomunais (em virtude do ab-uso e do auto-comprazimento frequente) requer uma correcção à escala, para protecção da(s) parte(s) feminina(s). Não admira, por isso, que a esteatopigia tenha diminuído ao longo dos tempos, na proporção directa em que a canzana primeva foi sendo substituída pelo moderno missionário. Evolução que só foi possível depois da descoberta da técnica do entrançamento de fibras e da consequente produção em massa de esteiras. Mas isso já é outra história.
[163] As Divas de O Pornographo: Charlotte Rampling
Na minha qualidade de Vice-Presidente para as Animações Culturais e Assim (noto que sou o único sem título académico, mas em compensação a única Excelência, e isso parece-me uma posição realista no actual conspecto da situação político-financeira), trago-vos a segunda diva de O Pornographo. Ela já tinha ameaçado no Porteiro da Noite. Mas a razão definitiva acontece aqui entre os -00'22 e os -00'15. São 7 segundos que, à bon entendeur... salut. É como se diz na música, aliás cantada pela Gibbons (nada é deixado ao acaso), "so strong my desire". (Clicai no vídeo e, uma vez penetrados no youtube, vêde aqueles 7 segundos - aqui, entre os 00'53 e os 01'00 - em écran inteiro)
[161] Da Pachacha (ensaio semantografonológico)
A semantografonologia é uma ciência que se dedica ao estudo da congruência entre o sentido, a grafia e o som das palavras. O seu objectivo é estabelecer o índice semantografónico de cada vocábulo, que conhece cinco graduações, a saber: nulo, vestigial, marquesmédio, impressionante e brutal. A ambição de todo o semantografonólogo é identificar e coleccionar, como borboletas perfuradas na esferovite, palavras com índice brutal. No meu top pessoal, de momento, encontra-se badalhoca, por razões que explicarei a pedido. Hoje reflectirei apenas sobre o potencial semantografónico do vocábulo pachacha, adiantando desde já que lhe atribuo um índice brutal. Preliminarmente, notareis que é unissémico, e isso é muito importante para a nossa ciência. Signos polissémicos angariados no reino animal, como pussy, chatte, minou, pito, parreca, rata ou passarinha, ou no domínio minero-geológico, como cave, greta, caverna, gruta, racha, fenda, grand canyon ou o aliás interessante morcegueiro, não têm a necessária precisão semântica para se proceder ao exame da congruência gráfica e fonética. O mesmo sucede com o saboroso orquídea salmonada. Entrando na matéria, pachacha é graficamente sugestivo. A insistência no "h", com sua forma de receptáculo carnento (e sua hastezinha de pegar), é muito mais marcante do que o "x" normalmente utilizado para designar o cromossoma feminino, e nem serviria trocá-lo pelo "y", que supõe já a mulher vista numa certa posição (e insinua, até, um cordãozinho de tampão a espreitar). Não por acaso, o "h" é sistematicamente colocado ao lado do "c", letra que possui, de per si, um índice semantografónico impressionante, já como inicial de cu, já pelo seu formato semi-nadegal lateralizado. Além disso, a visualização da repetição "cha-cha" (relevante também como aliteração no plano fonético: vd. infra) sugere um movimento pendular, vai-e-vem, dentro-e-fora, tira-e-mete, numa palavra, lubbilubbing oh my brothers and only droogs. Pachacha é também prenhe de sugestões fonéticas. Não designa qualquer vulva, mas apenas as algo gorduchas e majestosas: as que têm chicha e parecem pachás refastelados num cochim. Chucháveis. Uma pachacha pede, no mínimo, 38º C e camelos por perto, e lembra o ruído de uma cachoeira (ch-ch) onde se pode chapinhar ou mesmo chafurdar. Num registo plebeísta, é o choço onde o chopim descamisa o chouriço. Não se conjuga com pénis, nem pichota, nem piça - pachacha pede picha. Como podeis ver, pachacha tem um elevado índice semantografónico. Nas poucas relações de cariz sexual que mantive com outras pessoas, só pude presenciar uma verdadeira pachacha, cheirosa de patchuli; cheia de chatos, porém.
[160] Em tema de auto-palpação
Uma das virtudes mais exuberantes do homem português é a sua preocupação com a saúde genital. Não me refiro a coisas mais ou menos corriqueiras, tais como corrimentos, esquentamentos, micoses, herpes, e assim - ser titular de uma, ao menos uma vez na vida, é uma medalha, faz parte da própria condição humana do próprio homem - mas de coisas potencialmente graves. Na realidade, em todo o mundo a norte de Cape Town as mulheres são ensinadas a fazer a prevenção do cancro da mama através da auto-palpação. Mas muitas desleixam-se muito, e só a fazem, e esporadicamente, em momentos em que já não conseguem concentrar-se nas pontas dos dedos. O homem português não. O homem português, como nenhum outro, cuida diariamente da sua saúde genital através da auto-palpação do testículo. E várias vezes ao dia, e esteja onde estiver: na paragem do autocarro, a falar com o chefe, na missa, à passagem de uma mulher (qualquer uma), quando pede a bica com ou sem cheirinho, na missa, no futebol (dentro e fora do relvado), na missa, etc. Ora bem. O Pornographo dá este conselho completamente gratuito aos governantes: se fizerdes uma campanha de prevenção do cancro da próstata, explicai bem ao pessoal que se requer a intervenção de um médico. Por favor.
[157] As Divas de O Ponographo: Beth Gibbons
Este segundo ano de O Pornographo inicia-se com uma nova rubrica, dedicada às Divas de O Pornographo. Gostareis por certo desta versão anormalmente desbragada: já se vêem alguns dentes em mau estado, o cabelo está um pouco oleoso, e a Gibbons exibe aquela assexualidade que a torna tão apetecível. Finalmente, Glory Box tem a imagem gloriosa que eu sempre lhe associei. Mas sobretudo era para vos desejar um Feliz Inverno.
[156] O mundo está bem feito
Ontem, a Dona C. F. A. repetia a queixa imemorial contra Deus, ou quem mandou fazer a separação dos sexos: "Só nós [as mulheres] é que andamos grávidas nove meses, e eles [os homens e as desnaturadas] nem sabem o que isso é". Ouvi em silêncio, como sempre, para não criar mau ambiente num local de trabalho onde sou o único homem (ainda que não desnaturado). Mas um dia alguém havia de lhes lembrar que só a elas foi permitido dar de mamar.
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[155] Ao cuidado dos marialvas cépticosEla existe.
(PS: Recuperei a password esquecida num re-visionamento do grandioso Roommates)
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Terça-feira, Junho 5
[154] O poeta em todos nósdemasiados dentes demasiado compridos fazia bicos de papagaio
[153] De como, nos delírios, todo o cuidado é pouco
Estava eu há uns dias em amena cavaqueira de fim-de-tarde-de-sexta-feira com uma amiga que faz as vezes de criativa, quando começámos a falar, por acaso, da publicidade sexualmente arrojada que as Pedras Salgadas têm vindo a fazer nos tempos mais recentes. Não partilhei com ela, evidentemente, algumas das ideias geniais que já tive oportunidade de oferecer aqui. Mas a verdade é que a conversa adquiriu uma tonalidade engraçada (gosto muito desta expressão) e, à sexta imperial, divagávamos sobre novos anúncios: A Fátima, em bikini e com sovacos por depilar, banhando-se naquela cisterna algo sinistra onde a água é regaseificada, sussurrando "só prós, nada contra..." (e, no plano seguinte, o João César Monteiro numa mesa de café, extasiado, com vinte garrafas vazias de Pedras Salgadas à frente); A outra Fátima a beber um copo de Pedras Salgadas pela manhã e a proferir, sorridente e assertiva, "o iogurte já tratou do cócó; vamos agora ao xixi!"; O José António, nas primeiras horas de uma madrugada insuportavelmente estival, sentado à secretária de tronco nú (grande plano sobre os pêlos do peito), exausto de mais um editorial groundbreaking, a beber, pensativo, uma Pedras Salgadas pela garrafa, ao som de
Enfim, por aí fomos, explorando possibilidades de ícones e íconas. À décima imperial, eu disse, com aquele rasgo que me caracteriza: também podiam explorar a natureza, parece que o parque de Vidago é muito atraente, e assim; podiam pôr um esquilo a roçar-se numa garrafa de Pedras Salgadas. Não me importo nada que aproveitem as minhas ideias: todos sabeis que a TM do Pornographo significa Tomai-o e Multiplicai-o. Mas na próxima sexta-feira, ao fim da tarde, tenho de dizer à minha amiga, depois da décima imperial, que estava a brincar.
[152] A felina felacionista
Tania Derveaux, candidata às eleições belgas, promete, na sua homepage, fazer uma felação aos primeiros 40.000 cidadãos que se inscreverem no site, em resposta às promessas de 400.000 postos de trabalho feitas por outros candidatos. Até aqui, nada de muito especial. Já vi prometer coisas mais estapafúrdias (tipo, baixar os impostos). O que me prendeu a atenção foram as contas da candidata: diz que precisará de cerca de 500 dias, à razão de 80 broches por dia. Se supusermos que empregará 8 horas líquidas (isto é, fora os intervalos para comer, beber, gargarejar, bochechar) na função, resulta que tenciona fazer 10 broches por hora. Ora, um broche de 6 minutos não é digno desse nome: é um projecto, uma amostra de broche, enfim, um preliminar dos preliminares. Bem sei que são belgas, mas mesmo assim. Então a minha ideia era lançar um vasto movimento internacional de apoio à candidata, que propiciasse as condições necessárias para estender a duração média do broche até aos 10 minutos, sem que ela tivesse de preocupar-se com as despesas e os lucros cessantes. Arranjar um patrocinador (p. ex., uma firma de preservativos, que podia estender uma larga faixa branca com letras pretas nos locais, a dizer "O broche ao natural causa cancro da garganta"), empresas de catering (a que serve a TAP seria muito apropriada; já vejo o slogan: "A comida não vale um broche!"), congregar especialistas de renome na imprensa e na própria blogosfera para acompanhar diariamente a candidata, enfim, uma infraestrutura poderosa, capaz de dar a dignidade desejável à generosa campanha. Pensei chamar a este movimento BSS (Broches Sem Stress). Aceitam-se adesões.
[151] Coragem feminina
São comentários como este que aumentam a magnitude deste blog. Às vezes, são assim pequenas coisas que nos fazem ter vontade de viver e pensar. Por falar em pequenas coisas, há ainda algumas que continuam a diferenciar os sexos. Fazia eu, no outro dia, um bucólico passeio pelos campos quando vislumbrei uma indígena agachada a irrigar, com o seu, os musgos de um pinhal. Podia ter disparado umas fotos rápidas, mas não: fiquei quieto, em contemplação, como o Robert de Niro no Caçador perante o veado, a saborear o sentimento de genuíno domínio sobre a presa. Fiz muito bem, porque a meditação contemplativa traz sempre novas ideias. Descobri que as mulheres têm um tipo muito particular de coragem. Eu tenho pânico de gafanhotos, louva-a-deus, sapos, centopeias, e, em geral, de tudo o que salta de maneira imprevisível fora do meu controle. Se fosse mulher, alguma vez era capaz de me pôr assim, franca e vulnerável, a 10 cms. dos musgos. Livra.