O Pornographo - um blog que não sai do corpo (fund. 2005)
terça-feira, abril 25
  [76] As revoluções pornographicas: post em forma de ?
Este é um post urgente, e só por isso o desanexo da ordem natural que teria no desenvolvimento da minha teoria pornosófica. O mote: a pornographia é uma sucessão de revoluções libertantes, e, como alguém disse a outro propósito, vamo-nos (re)tornando, lentamente, naquilo que somos.
Os antigos sabiam que a pornographia fazia aumentar a esperança de vida, logo a felicidade. Olhavam para as parceiras e parceiros, e que viam? Barrigas cheias de pêlos, bocas desdentadas, hálitos fétidos, rabos rectos, mamilos no lugar de tetas, micro-falos. Era uma vida dura, e o futuro ainda demorava umas eras. Moldavam então, livremente e para a fruição de todos, aquelas estatuetas de barro, de ancas e mamas descomunais, ou erecções antológicas, porque isso lhes dava ânimo para continuar a colher os frutos, caçar os animaizinhos, lavrar os campos, e assim.
Dominada a fome e arredondadas as nádegas, os gregos e os romanos foram os primeiros a compreender - e a celebrar - a pornographia num plano puramente hedonístico. Por razões de todos conhecidas, essa cena esvaiu-se (a chamada decadência do Império Romano), e, na idade média ocidental, a pornographia submergiu, ficando reservada a uma elite cultural que raramente a deixava sair dos mosteiros e conventos.
Muito se fez nas Luzes por ela, sob a influência diferida de Gutenberg, mas continuou a ser desfrutada por um número limitado de indivíduos - basicamente, aqueles que compreendiam o sentido da palavra "basicamente".
A revolução industrial trouxe a captação da imagem real (a fotografia e, depois, o cinema) e pela primeira vez a pornographia adquire um carácter nitidamente inter-classista: representação pornographica a soldo, de onde provém a inacreditavelmente persistente ideia da pornographia como forma de exploração. Adiante. Nesse momento, a representação pornographica continua a circular em meios restritos, salas de espera de bordéis, festas privadas & etc.
Depois da 2ª Guerra a pornographia foi-se democratizando e, a custo, vencendo as leis de proibição. Os fenómenos místicos que entretanto se sucederam, bem como as mensagens dos alienígenas desembarcados em vários pontos do planeta, embora preocupados com a Rússia comunista, nada opuseram expressamente ao desenvolvimento da pornosofia. Pela primeira vez desde as estatuetas mamudas, a plebe pôde aceder à pornographia, comprando bilhete. Pouco tempo depois surgiriam as "revistas de charme", a Playboy, a Weekend-Sex e a Gina. Os filhos da Outra Senhora viam O Último Tango e confessavam em segredo já ter visto "um filme pornographico". O Pato com Laranja era projectado na RTP1, originando uma vaga de protestos, grande parte deles suscitados pelo facto de se pensar que "clitoris" era o nome de um submarino nuclear russo.
Mas a mudança realmente qualitativa viria depois: qual foi?

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quarta-feira, abril 19
  [75] Epistemologia, deontologia e femmes-fontaine
Sempre fui circunspecto e conciso, mas confesso que não era bem isto que imaginei quando comecei O Pornographo: reparo que ando a escrever um - às vezes menos - post por semana, o que é manifestamente execrável. E o que é pior: hoje venho aqui, exclusivamente, por uma inquietação epistemológica-deontológica que me anda a corroer desde ontem à noite.
Naquele programa de educação sexual pro povo, da ex-televisão da Igreja, vi a apresentadora engasgar-se, literalmente, com uma pergunta de uma telespectadora sobre a "ejaculação feminina" (o fenómeno das chamadas femmes-fontaine, ou squirters). E tal, que provavelmente não, que a ejaculação é baseada no sémen (sic) e que portanto é exclusivamente masculina, que as opiniões dividem-se, que é um assunto em aberto, e assim.
Como é habitual, nem vou entrar no mérito da questão. Já expliquei por diversas vezes que este blog não é sobre sexo. O que me preocupa são as questões epistemológica e deontológica subjacentes: quando uma sexóloga profissional anuncia publicamente que a ejaculação feminina pode ser uma quimera, é legítimo concluir que ela própria não ejacula? Ou pode uma sexóloga profissional ejacular e, simultaneamente, contribuir para manter o assunto, digamos, em águas glaucas? As perguntas são retumbantes, mas, como diria o Anarca, inelutáveis.
O primeiro problema é de ordem epistemológica, e resolve-se de jacto: uma sexóloga que ejacule não pode deixar de se implicar, como investigadora, no objecto investigado. A experiência de si próprio(a) é fundamental, sobretudo nestas áreas, pois, como escreveu luminosamente Gaston Bachelard, o (a) cientista não pode pendurar o homem (ou a mulher) à porta do laboratório (G. Bachelard, La Formation de l'Esprit Scientifique, 1938).
Mas, depois, surge um dilema deontológico: uma sexóloga que ejacule tem o dever de elucidar a populaça, apontando, cristalina, o seu próprio exemplo? Ou mantém o direito de preservar a sua intimidade, enganando o pagode com fantasias mais ou menos escatológicas relativas a uma certa mistura de fluidos?
A resposta é incerta: nem todos aceitam devotar o seu corpo vivo à ciência. De qualquer maneira, parece-me que a única solução para acabar com a incerteza "científica" é criar programas públicos de estímulo (bolsas, isenção de propinas, oferta de 1.000 pares de slips) para as jovens que ejaculam seguirem a carreira da sexologia. Bastará então que meia dúzia de entre elas aceitem a ideia de se tornarem em objectos da própria pesquisa e estabelecerem, de uma vez por todas, que a Cytherea é uma possibilidade "científica".
Fica já a sugestão para o título da obra: Female Ejaculation: Coming to the Grail.
 
domingo, abril 9
  [74] Do casamento como marco
Agora que saíu a sentença de divórcio, vejo como o casamento foi uma fronteira importante na minha vida: muito sexo antes, as drogas e o álcool vieram depois.
 
sábado, abril 1
  [73] Más companhias
Hoje fui ver um filme de um realizador consagrado, e muito da minha preferência, cujo nome não merece sequer menção aqui. Vamos todos fingir que esse filme, esse exercício patético sobre uma história de violência algures na América profunda, essa alegoria do vazio criativo, essa mistura rasca de goodfellas (sem ofensa) com anúncios da KFC, essa transposição cinematográfica do discurso de Rui Santos, esse aborrrrrrreeeeeeeeecimento sem fim que ainda por cima acaba no meio de si próprio, nunca existiu.
Toda a sessão foi deprimente: antes do filme, passou o treila do Basic Instinct 2, com a inatingível Sharon, já aqui festejada de forma gráfica e entesiástica. Mas hoje tive a certeza: foram as más companhias e, quem sabe, o dinheiro fácil, que a perderam. Pudesse eu tê-la orientado na altura certa, ou tivesse ela sido mais persistente, e a Nina Hartley (sorry kid) nunca teria passado de duplo para as cenas de "amour à la Joisse" (sic). E o pior é que, tendo ainda corpo, já é demasiado rica para aceitar um papel na série Hot 50 +. Uma lástima.
É por isso que eu gosto dos sistemas de democracia centralizada, onde cada um é mesmo para o que nasce, e ninguém é desviado para porra alguma lá por ter outros atributos laterais, tipo, saber representar drama.
 
  • "Não digais: «Dá três sem a tirar». Dizei: «É um simplório»" (Pierre Louÿs, Manual de Civilidade para Meninas)
  • "«Irei pelos penhascos» - disse ele, saindo da gruta" (Lobsang Rampa, O Eremita)
  • "This time we go sublime" (Frankie Goes to Hollywood)
  • APRESENTAÇÃO
    EU É QUE SOU O PORNOGRAPHO
    100 nada
    A Causa Foi Modificada
    A funda São
    A Loira Não Gosta de Mim
    A Natureza do Mal
    Albergue dos Danados
    Almocreve das Petas
    Anarca, aka Ganda Cavaleiro Pornographico
    Avatares de um Desejo
    Azul Cobalto
    ...Blogo Existo
    Bombyx-Mori
    Chez Maria
    Cocanha
    Diário da República
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    FFFamel ZZZundap
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    fluffy Lychees
    Frangos para Fora
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