[146] As revoluções pornographicas (III)
... eis senão quando surge a terceira revolução pornographica: a candid camera. O vertiginoso avanço e a democratização da tecnologia permitiram que largas camadas da população deixassem a posição de espectador expectante da cena pornographica para se tornarem em actores, realizadores, produtores e, mesmo, numa fase tardia, distribuidores de pornographia. Aquilo a que chamarei, nas minhas memórias, o efeito inverso da Rosa Púrpura do Cairo.
Claro que a Polaroid já era um prenúncio dessa possibilidade, garantindo a intimidade da fixação e revelação da cena pornographica. Mas hoje, as polaroids mais hard-core têm o ar ternurento das fotografias em brometo de prata que o Papo-seco nos traz semanalmente.
As massas libertam-se, compreendendo que a produção pornographica está ao seu alcance, e que já não têm que pagar os gostos dos comerciantes profissionais. Criam os seus cenários, desenham o guarda-roupa, determinam a abundância ou a ausência de pintelheiras. Encenam ou filmam "ao natural".
E é precisamente este "natural", quanto mais se afasta do artifício comercial, que instaura um novo paradigma pornographico. O povo já não quer ver as actrizes lourisculturais, cinzeladas nos seus silicones, nem os actores bronzeados e dotados, com cara de comissários de bordo. O povo quer ver gente real, igual a ele - como se fosse ele, ou, melhor ainda, a Dona J. Quer ver a cara do sargento do 1º Esq. quando se submete a uma massagem prostática. Quer confirmar que a Dona M. C. tem estrias na barriga.
Naturalmente, as produtoras comerciais reagiram. Passaram a procurar amadores para as suas representações. Gente comum, com borbulhas nas nádegas, dentes encavalitados, sovacos peludos. Mulheres que se engasgam, homens que não acertam à primeira. A iluminação é propositadamente má, a câmara ao ombro, a descoberta do POV, os diálogos improvisados, a dizer: isto é real.
Não obstante, pese embora a inteligência da jogada, já é manifesto que não as salvará: o crescimento das possibilidades de distribuição privada e gratuita através da internet, somado à preferência pelo real-real em relação ao real-construído, ditam-lhes dificuldades inultrapassáveis. Em consequência, começaram a explorar uma outra direcção, onde o profissionalismo tem mais trunfos: os niches do mercado. A eles nos devotaremos brevemente.Etiquetas: Revoluções pornographicas